Quero poder te amar, cegamente. Sentir teu corpo no meu, com o som da chuva na janela. Te fazer rir das minhas tolices, e chorar contigo por tanto amor que não cabe aqui dentro. Quero teu suor no meu cabelo, tuas mãos na minha bunda. Teus lábios indecisos entre os meus lábios e meus seios. Te cantar cantigas e acariciar teu rosto em manhãs de domingo… Passar o dia a te esperar, e as noites a te amar.
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
Millôr Fernandes
Gentil, faceiro,
um cavaleiro,
sob sol e sombreado,
seguiu avante,
cantarolante,
em busca do Eldorado.
Mas o andarilho
ficou tão velho,
no âmago assombrado,
por não achar
nenhum lugar
assim como Eldorado.
E, enfim diante
de sombra errante,
parou, quando esgotado
e arguiu-lhe “onde,
sombra, se esconde
a terra de Eldorado?”
“Sobre as montanhas
da lua e entranhas
do Vale Mal-Assombrado,
vá com coragem,”
disse a miragem,
“se procuras o Eldorado”.
Edgar Allan Poe
És rosa - isso diz tudo…
Se a rosa tem espinhos,
Meus olhos olhos de veludo,
tu tens espinhos, flor…
Tens límpidos carinhos
Mas tens também espinhos
Que ferem todo o amor.
Teus límpidos carinhos,
Meus olhos de veludo,
Mas tens também espinhos…
És rosa - isso diz tudo.
Isso diz tudo - és rosa…
Colhida na roseira
Da vida perfumosa
E seja como for,
De tal ou qual maneira
Que colham-te à roseira
Darás prazer e dor!…
De tal e qual maneira,
Da vida perfumosa,
Serás como a roseira…
Isso diz tudo - és rosa!
Cruz e Sousa-1884